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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O gelo seco do teatro pós-dramático


Clayton Nobre


Essa não é uma apresentação do teatro pós-dramático, cunhando por Hans-Thies Lehmann em seu livro lançado no Brasil em 2007. Para se travar uma discussão sobre o assunto, eu sugiro uma leitura do livro e o estímulo ao debate nos corredores e fóruns de discussão. Aliás, esse é o tema que vem pautando conversas e aulas no Brasil inteiro e seria interessante entrarmos nesse circuito.

O que proponho é uma postura crítica a quem se debruça sobre o teatro pós-dramático, ou a quem começa a manifestar interesse, mas principalmente àqueles que veneram com olhos apaixonados, por vezes cegos e anestesiados pela falta de discussão e debate.

Lehmann cunha sua teoria pós-dramática a partir do distanciamento, ou de uma reformulação, do conceito tradicional do drama burguês de Peter Szondi. Lehmann traz a fábula como substituição ao conceito de narrativa. O drama seria tudo o que “obedece ao primado do texto e preserva as categorias de imitação e ação”, na fala de Silvia Fernandes, uma das principais estudiosas do assunto. Partindo, então, da teoria lehmanniana, o que se chama de teatro pós-dramático, em oposição ao pós-moderno, seria uma outra lógica ao drama burguês, um novo teatro que dá forma a uma resistência à sociedade do espetáculo. Bem, não era essa a função do teatro épico?

Vou trazer à conversa a professora Iná Camargo Costa, em debate que fez junto com Paulo Arantes, em um seminário da II Trupe de Choque ocorrido em setembro de 2009. Deparei-me com o vídeo por intermédio de Selma Bustamante, diretora do meu grupo Baião de Dois. Eu recomendo ver a palestra inteira, obedecendo, obviamente, à paciência que a internet manauara nos reserva.

Para Iná, ao esvaziar o conceito de drama de Peter Szondi, o próprio conceito de teatro pós-dramático do Lehmann ficaria inútil. O propósito desse esvaziamento, para o que seria uma desconstrução, é o cultivo de uma fumaça branca de gelo seco. “Isso tudo é um processo de quem não gosta de sofisma”, diz Iná. “O argumento pros sofismas, desde a Antiguidade, é uma boa maneira de eliminar as questões que interessam e atulhar a nossa cabeça, os livros e as cenas de inúmeras questões que não vão a lugar nenhum”. E complementa: “esse é um aspecto da elaboração do Lehmann, e acho que sei de onde ele exatamente arranca”.

Chamando o atual momento de pântano teórico, no qual estamos a milímetros de nos afogar, Iná acusa Lehmann de usurpador de conceitos. E para isso faz duras comparações com o stalinismo e a batalha pela velha ordem (a exemplo da Revolução de 1917, na Rússia, onde a social democracia lutou veementemente contra as bandeiras que se levantavam pelo proletariado – está no primeiro trecho do vídeo). Embasada na Linguagem de Heidegger e sectos como Derrida, o Lehmann seria, na verdade, um ingrediente da sociedade do espetáculo, em vez de seu crítico, retomando uma bandeira do combate ao teatro épico, por vezes esquecida. É uma provocação.


Clayton Nobre jornalista e ator




sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Núcleo de Artes Cênicas entra em circuito

 
 
 
Clayton Nobre
 

Vou tirar proveito desse espaço – e da liberade que tenho nele – para divulgar que acaba de ser criado um núcleo de artes de cênicas em Manaus. A ideia partiu do Coletivo Difusão, onde o grupo se encontrará todas as quintas-feiras, às 19h. O propósito debatido na reunião de fundação é formar um grupo fixo – ainda não estabelecido – e outro de agregados. Juro que a ideia de pautar a criação do núcleo no blog tem fins maiores que a mera divulgação. Eu explico por quê.

A reunião de fundação, ocorrida em 23/12, teve a presença de Léo Carnevale (RJ) e Márcio Silveira (RS), que norteou um pouco as diretrizes do núcleo em suas primeiras atividades. O que se percebe ao misturar tudo o que foi deliberado e discutido é que o núcleo vem movimentar um pouco o que resta de articulação política no Estado no âmbito das artes cênicas. E essa é uma cobrança nacional e, mais ainda, regional. A reclamação é grande quando se discute articulação e organização política (em todos os sentidos) dos grupos e artistas em Manaus.

O núcleo a partir de agora contrabalanceia um pouco as discussões do Palco Fora do Eixo, segmento cênico do Circuito Fora do Eixo (CFE), do qual o Coletivo Difusão faz parte. O Palco é um projeto nacional que quer potencializar e agregar os artistas e grupos independentes do Brasil, fomentando novos modos e processos de criação artística contemporânea. A ideia é que o núcleo absorva os aspectos ideológicos da rede CFE, trazendo para a organização e discussão cênica manauara aspectos da economia solidária e da cadeia produtiva. Esta é a forma de organização que tem pautado nacionalmente as políticas culturais no âmbito federal. E provavelmente é a política que seguirá nos próximos quatro anos.

Mas, eu penso, de nada adianta agregar o Amazonas a uma rede nacional de discussão e valorização das manifestações cênicas se a articulação local é falha. A cena local cresce quando se imagina o teatro em termos de um circuito, que só funciona a partir do pensamento ecossistêmico de que não estamos sozinhos e que a única forma de fortalecimento é se inserir como ponto numa enorme teia. E, de certa maneira, esse é o pensamento que prevalece na juventude de diversos segmentos.

Enfim, a quem interessar, algumas atividades do núcleo já foram planejadas em parceria com o Grupo Teatral Manjericão (RS), que passa o Natal em Manaus em virtude do projeto Banzeirando. Dias 27, 28 e 29 de dezembro o grupo ministra uma oficina de teatro de rua, de 14h às 17h, no Sinttel (Alexandre Amorim, 392, Aparecida). É de graça.

P.S.: Feliz Natal!


Clayton Nobre é ator e jornalista

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O monopólio das fadas e o teatro na guerra dos sonhos

 
 
 
Clayton Nobre
 
 
Quando digo que neste Natal eu prefiro ficar em casa vendo TV, longe dos que reservam os palcos manauaras natalinos de teatro, pareço um retrógrado com um discurso pseudorrevolucionário. A crítica ao “comercial” parece velha e já não ganha destaque nos comentários que se fazem hoje num mundo tomado pelo presente contínuo e pela circulação lucrativa. Você, que despreza bancar esse lucro, é um velho pseudointelectual que só enxerga o teatro no lugar culto das práticas minoritárias. A verdade é que nossos ouvidos já foram abstraídos e até agora não se entende muito as críticas feitas.

Imagine como está a opinião pública, então, daqueles pensadores que dedicam seus trabalhos no alerta de que estamos numa guerra, de que a sociedade inteira está sob o poder da mídia de forma sem precedentes. Minha proposta aqui é ponderar um pouquinho. Ora, não é tão difícil ver o estatuto da ficção, por exemplo, num lento desmoronamento. Verifiquei numa leitura a preocupação do antropólogo Marc Augé, em sua Guerra dos Sonhos. Ele chama a atenção para a liberação de uma forma transviada do imaginário com o desenvolvimento das tecnologias. “Seria uma catástrofe se constatássemos tarde demais que o real tornou-se ficção, e que, portanto, não existe mais ficção (só é fictício aquilo que se distingue do real)”, disse ele. Bem, mas corrobora com essa catástrofe o teatro de shopping que estou aqui criticando? E por que é tão nocivo para o nosso imaginário?

É a calma para discutir essas questões que falta nos debates em Manaus. (Faltam debates, na realidade). O imaginário parece vir da boca de todos aqueles que querem travar uma discussão sobre o assunto, e também é banal nas declarações de quem defende sua obra de arte. “Meu teatro provoca a imaginação”. Mas o que é isso, afinal? Pouco se elucubra sobre a mediação simbólica entre a obra e o espectador de forma a instigar o que seria nosso imaginário. De que imaginário estamos falando?

Sob o imaginário, falamos de imagem. E é nesse assunto que me debruço ultimamente; assunto que me instiga, me importuna, me emociona e servirá, neste post, como um argumento (de uma enorme lista) ao teatro que se perpetua em certos palcos. Se chamarmos os teóricos da imagem para a conversa, eles também vão falar aqui em guerra. A imagem aniquila e está em todos os lugares. Eu falo, você imagina. Eu escrevo cadeira, você imagina. Eu escrevo sexo, você imagina. Eu escrevo fada, você imagina, daí surgem fadas diversas, cada qual com seu imaginário. Essas são imagens próprias, invisíveis, na palavra dos teóricos. Endógenas, na teoria de Hans Belting. Eu escrevo inferno e, apesar de invisível e impalpável, todos imaginarão o inferno de Dante. Daí porque a imagem aniquila. Daí porque a tecnologia com que Augé se preocupa causaria uma catástrofe, tal qual vem causando a religião. A televisão, por exemplo, não trabalha com imagens invisíveis, interiores. Se ela mostra um inferno, não surgirão outros.

Por isso me apaixono pelo teatro e pareço brega quando digo que ele é transcendental. Ora, qualquer encenação provoca a imaginação, teatreiros. Mas o poder da comunicação simbólica é aqui subestimado por esse discurso banal e sem base. Evocar imagens é um ato mágico, diz Morin. Mas são com nossas imagens internas, próprias, e com o confronto com as imagens já estabelecidas, que participamos de uma experiência fora do nosso eixo tradicional de tempo e de espaço. Com essa transcendência, o teatro abre espaço para o jogo e se trabalha com uma percepção do público autônoma e autocriadora. Guattari tem o mesmo aflito: "as máquinas enunciadoras podem trabalhar tanto no sentido de um esmagamento uniformizador quanto na ressingularização libertadora da subjetividade individual e coletiva". Os contos de fadas que conhecemos é um exemplo clássico. O teatro aqui tem nas mãos a possibilidade da transcendência, mas foge pela via da circulação lucrativa, pela imagem pronta, pela forma com que a televisão se apropria da realidade, pela imagem já incorporada na infância numa guerra injusta. Não é um aniquilamento?

P.S.: Com o perdão de mais uma citação, há um artigo muito legal (Podem as imagens devorar os corpos) de Norval Baitello Jr, a quem interessar uma segunda leitura sobre o estudo das imagens. Está na revista Sala Preta, da USP: http://tinyurl.com/287hzkj


Clayton Nobre é ator e jornalista.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Nem tudo o que reluz...

Clayton Nobre


Uma vez ou outra escutamos algum lamento desesperado de alguém clamando por alguma atividade cultural que o sacuda em seus finais de semana. De certa forma, podemos observar, essa é uma realidade que vem se transformando em Manaus. Ou porque começam a surgir alternativas para esses desventurados ou porque se ampliam os canais de comunicação direta entre os artistas da cidade e seus públicos. Ambas as alternativas são bem plausíveis.

Podemos notar nos últimos anos – o último, especificamente – alguns grupos e coletivos da cidade arregaçando as mangas para montar seus espaços e oferecer alternativas que se misturem às opções do poder público nos cadernos culturais da cidade. E são espaços que de hora em hora estão na mira dos curiosos que citei no início. Nessa semana vários já me perguntaram: onde é o Casarão? Onde fica o Arte & Fato? Onde está o pessoal do Difusão? Sinttel é um algum espaço cultural?

O outro argumento também é discutível, ainda que pouco notável e muito embrionário. Isto é, talvez muito se tenha feito às escuras dos cadernos culturais e muitos grupos, hoje, encontram alternativas para se comunicar diretamente com seus públicos por meio da internet. E é daí que proponho uma discussão e saúdo iniciativas como a deste canal, de onde vos falo.

Haverá um tempo, esperemos, que começará a se alastrar não só as então alternativas culturais. O ideal é que essa noção do espaço artístico como lugar de vislumbre – vejam exemplos nos jornais – comece a ruir quando surgem esses novos processos de comunicação na arte. As opiniões coletivas e múltiplas começam a ser manifestas e nem tudo que reluz se evidenciará ouro. Comecemos, então, nossas reflexões e estejam abertos a debater, discordar, brigar, acrescentar. Nossa proposta é refletir sempre.


Clayton Nobre é ator e jornalista.

Contato: clayton.nobre@gmail.com
Twitter: @claytonnobre

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Teatro Comentado

O blog do Casarão de Ideias está lançando o projeto Teatro Comentado, que consiste em colocar em prática o exercício da reflexão teórica sobre as artes cênicas na Cidade de Manaus. O contexto da capital do Amazonas é carente em literatura sobre as artes em geral - o Teatro em especial -, por isso esse espaço nos parece de extrema relevância. Para essa empreitada escolhemos três principais comentadores: Clayton Nobre, Denni Sales e Francis Madson.

Antes de apresenta-lhes os comentadores, cabe explicar o porquê do título do projeto. A ideia de se ter um Teatro comentado vem da etimologia das duas palavras. Primeiro: Teatro, do grego théatron, lugar onde se assiste a um espetáculo, espectadores, o próprio espetáculo. Concebemos o Teatro como o lugar onde se vê, portanto caberá aqui comentários não só de literatura dramática encenada, mas também de dança, de leituras dramatizadas e até de outros "espetáculos" que os autores julgarem dignos do nome.

Segundo: comentar, do latim commento, as, ávi, átum, áre, meditar, pensar em; compor, escrever sobre um assunto; comentar, anotar, explicar, discutir; imaginar, descobrir. Tomamos o vocábulo sob o ponto de vista de quem escreve sobre um assunto, discute, imagina. Então, não se trata de crítica, no sentido de julgar algo, mas sim de anotar, explicar, comparar.

Nesse caminho, no de lançar à comunidade amazonense um espaço de debate e, quiçá, mostrar o Teatro manauara ao restante do Brasil, nasce o projeto. A ideia  é trazer artistas jovens para falar sobre as artes em Manaus. Dos melhores, trouxemos três. Aguardem as reflexões.
 
Responsáveis pelos textos estão os já citados autores e eu mesmo, Vitor Lima. A seguir a apresentação de cada um (por ordem alfabética).

Clayton Nobre

Jornalista e ator de teatro. É bacharel em Comunicação - Jornalismo pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e mestrando em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde desenvolve pesquisa sobre os aspectos estéticos e imagéticos do teatro em área de concentração sobre Comunicação e Sociabilidade Contemporânea. Foi ator do Laboratório de Investigação Teatral (2004-2006) e desde 2007 integra o grupo de teatro Baião de Dois, participando dos espetáculos Torturas de Um Coração, Coquetel Molière, O Auto do Boi e De P a P - Da Paquera ao Parto.
Contato:clayton.nobre@gmail.com

Denni Sales


É ator, diretor, dramaturgo e performer. Cursa Filosofia na UFAM. Integra o TESC (Teatro Experimental do SESC-AM), coordena o espetáculo de humor Sábados Detonados onde também atua e escreve textos.  Atua também nas mídias áudio-visuais. Em 2010 foi ganhador do concurso de dramaturgia Álvaro Braga, no gênero comédia, com o texto A diabólica Mary Spears. Atualmente assina a direção e a dramaturgia do espetáculo Coisas para depois de Meia Noite.

 
Contato:dennisales@hotmail.com

Francis Madson

Ator, diretor, performer, artista de dança e dramaturgo. Atualmente está cursando duas graduações: teatro e dança, pelas Universidades de Brasília (Unb) e do Estado do Amazonas (UEA), respectivamente. Com uma carreira artística completa de experiências compensatórias, por seu trabalho de criação artística vasto, já foi citado em revistas do Galpão Cine Horto - Subtexto -, de Minas Gerais, além de ter estudado com artistas de renome nacional e internacional da dança e de teatro. Todo o seu trabalho proporcionou-lhe, inclusive, a participar da elaboração e coordenação de eventos, lhe rendendo capacitação e experiências para fazer parte da coordenação de festivais, seminários, debates e outros. Participa da Cia. Cacos de Teatro

Contato:filhodolouco_3@hotmail.com

Vitor Lima

Amante da sabedoria, ator e editor deste blog. Integrante da Cia. de Ideias, onde atualmente atua no espetáculo Auto do Rei Leal. É acadêmico do curso de Direito da UFAM.


Contato:
lima.vitoor@hotmail.com